7.2.16

"POESIA NÃO É UM LUXO"



as Deusas estão em terra, fazendo luz como cria, como bebê de barriga, como fio de assombração
encantando gente, aldeias, botos, jardins e sereias

fazendo brotar sementes e pontos de imensidão

as Deusas são filhas fartas, são mãe livres, naturadas

rebentam em flor e cabaça, e dão luz a berimbaus

olhe pra si,
veja
sinta
no antro de quem te cria, tem um ponto de magia, miolo de patuá
olhe pra si
veja, sinta
olhe bem pra sua barriga, no antro de sua vida, no ventre, na luzmenina, tem mandinga, tem lampejo, tem Deusa pra abençoar!



por Belize Pombal
que se inspirou no meu autorretrato (acima)
mas parece que fez para o autorretrato abaixo

 





caço fuço busco o divino em mim
nas coisas que saem pelo meu olho
quando plena,
me sinto parte do mundo
me misturo a ele
e nasço sempre e de novo.

meu divino é de carne e osso
tem pele negra
cabelos crespos e soltos
e um útero que dança
minha divindade é herança
do útero do útero do útero
que gerou minas avós e meus avôs
e meu pai e minha mãe
e eu...






POESIA NÃO É UM LUXO
- por Audre Lorde


A qualidade da luz pela qual escrutinamos nossas vidas tem impacto direto sobre o produto que vivemos, e sobre as mudanças que esperamos trazer por essas vidas. É dentro dessa luz que nós formamos aquelas ideias pelas quais alcançamos nossa mágica e a fazemos realizada. Isso é poesia como iluminação, pois é pela poesia que nós damos nome àquelas ideias que estão – até o poema – inominadas e desformes, ainda por nascer, mas já sentidas. Essa destilação da experiência da qual brota poesia verdadeira pare pensamento como sonho, como sonho pare conceito, como sentimento pare ideia, e conhecimento pare (precede) entendimento.
Conforme nós aprendemos a sustentar a intimidade do escrutínio e a florescer dentro dele, conforme aprendemos a usar os produtos daquele escrutínio para ter poder dentro de nossa vida, aqueles medos que nos comandam e formam nossos silêncios começam a perder o controle sobre nós.
Para cada uma de nós mulheres, há um lugar escuro por dentro, onde escondido e a crescer nosso espírito verdadeiro se ergue, “lindo / e firme como uma castanha / opondo-se colunar ao (v)nosso pesadelo de fraqueza”[2] e impotência.
Esses lugares de possibilidade dentro de nós são escuros porque são ancestrais e escondidos; eles sobreviveram e cresceram fortes através daquela escuridão. Dentro desses lugares profundos, cada uma de nós mantém uma reserva incrível de criatividade e poder, de emoção e sentimento não examinado e não registrado. O lugar de poder de mulher, dentro de cada uma de nós, não é branco nem superficial; é escuro, é ancestral e é profundo.
Quando vemos a vida no modelo europeu, unicamente como um problema a ser solucionado, nós contamos somente com nossas ideias para nos deixar livres, pois isso foi o que os patriarcas brancos nos disseram que era precioso.
Mas quanto mais vamos entrando em contato com nossa consciência de vida ancestral, não europeia, como uma situação a ser experienciada e com a qual interagir, nós aprendemos mais e mais a cultivar nossos sentimentos e a respeitar aquelas fontes secretas de nosso poder de onde vem conhecimento verdadeiro e, portanto, as ações duradouras surgem.
Nesse ponto no tempo, acredito que como mulheres, carregamos dentro de nós a possibilidade de fusão dessas duas abordagens (razão e sentimento) tão necessárias à sobrevivência, e chegamos perto dessa combinação em nossa poesia. Eu falo aqui de poesia como uma destilação revelatória da experiência, não o jogo de palavras estéreis, muitas vezes os patriarcas brancos distorceram a palavra poesia para significar – para cobrir um desejo desesperado por imaginação sem vislumbre.
Para mulheres, então, poesia não é um luxo. Ela é uma necessidade vital de nossa existência. Ela forma a qualidade da luz dentro da qual predizemos nossas esperanças e sonhos em direção à sobrevivência e mudança, primeiro feita em linguagem, depois em ideia, então em ação mais tocável. Poesia é a maneira com que ajudamos a dar nome ao inominado, para que possa ser pensado. O horizonte mais distante de nossas esperanças e medos é calçado por nossos poemas, talhado das experiências pétreas de nossas vidas diárias.
Conforme eles se tornam conhecidos e aceitos por nós, nossos sentimentos e a exploração honesta deles, se tornam santuários e solo polinizado para a mais radical e audaz ideia(s). Os sentimentos se tornam um abrigo para aquela diferença tão necessária à mudança e a conceituação de qualquer ação significativa. Agora mesmo, eu poderia nomear pelo menos dez ideias que eu teria achado intoleráveis ou incompreensíveis e assustadoras, exceto se tivessem vindo depois de sonhos e poemas. Isso não é fantasia tola, mas uma atenção disciplinada ao verdadeiro significado de “isso parece certo para mim.” Nós podemos nos treinar a respeitar nossos sentimentos e transpô-los em uma linguagem para que possam ser compartilhados. E onde aquela linguagem ainda não existe, é nossa poesia que ajuda a tecê-la. Poesia não é só sonho e visão; ela é a estrutura óssea de nossas vidas. Ela lança as fundações para um futuro de mudança, uma ponte entre nossos medos e do que nunca aconteceu antes.
Possibilidade não é para sempre nem instante. Não é fácil sustentar crença. Às vezes podemos trabalhar muito e duro para estabelecer uma primeira trincheira de resistência real às mortes que esperam que vivamos, só para ter essa trincheira roubada ou ameaçada por aquelas calúnias que fomos socializadas a temer, ou pela retirada daquelas aprovações que por segurança fomos alertadas a buscar. Mulheres, nos vemos diminuídas ou abrandadas, falsamente, pelas benignas acusações de infantilidade, de não-universalidade, de mutabilidade, de sensualidade. E quem pergunta a questão: eu estou alterando sua aura, suas ideias, seus sonhos, ou eu estou meramente movendo você a atos temporários e reativos? E mesmo que a segunda não seja má tarefa, é uma que deve ser vista no contexto de uma necessidade de verdadeira alteração das fundações mesmas de nossas vidas.
Os patriarcas brancos nos disseram: penso, logo existo. A Mãe Negra dentro de nós – a poeta – sussurra em nossos sonhos: eu sinto, portanto eu posso ser livre. Poesia cunha a linguagem para expressar e empenhar essa demanda revolucionária, a implementação daquela liberdade.
Contudo, a experiência nos ensinou que ação no agora é também necessária, sempre. Nossas crianças não podem sonhar a não ser que elas vivam, elas não podem viver a não ser que estejam nutridas, e quem mais vai alimentá-las da comida verdadeira sem a qual seus sonhos não serão nada diferente dos nossos? “Se você quer que nós mudemos o mundo algum dia, nós ao menos temos que viver tempo o bastante para crescer!”, grita a criança.
Às vezes nos drogamos com sonhos de ideias novas. A cabeça vai nos salvar. O cérebro sozinho vai nos libertar. Mas não há ideias novas esperando nas asas para nos salvar como mulheres, como humanas. Só há aquelas velhas e esquecidas, novas combinações, extrapolações e reconhecimentos, desde dentro nós mesmas – junto à renovada coragem para tenta-las. E nós temos que encorajar constantemente, a nós mesmas e umas as outras, para tentarmos as ações heréticas que nossos sonhos implicam, e que tantas das nossas velhas ideias desprezam. Na linha de frente de nossa movimentação até mudança, só há poesia para aludir à possibilidade feita real. Nossos poemas formulam as implicações de nós mesmas, o que sentimos dentro e ousamos fazer realidade (ou trazer ação de acordo com), nossos medos, nossas esperanças, nossos terrores mais cultivados.
Pois dentro de estruturas vivas definidas pelo lucro, pelo poder linear, pela desumanização institucional, nossos sentimentos não foram feitos para sobreviver. Mantidos por perto como adjuntos inevitáveis ou passatempos prazenteiros, era esperado que sentimentos se curvassem a pensamento como era esperado que mulheres se curvassem a homens. Mas as mulheres têm sobrevivido. Como poetas. E não há sofrimentos novos. Nós já os sentimos todos. Nós escondemos tal fato no mesmo lugar em que nós escondemos nosso poder. Eles emergem em nossos sonhos, e são nossos sonhos que apontam o caminho para liberdade. Aqueles sonhos se tornam realizáveis por nossos poemas que nos dão a força e coragem para ver, sentir, falar, e ousar.
Se o que precisamos para sonhar, para mover nossos espíritos mais profunda e diretamente até o encontro, é menosprezado como luxo, então nós desistimos do cerne – da fonte – de nosso poder, nossa mulheridade; nós desistimos do futuro de nossos mundos.
Pois não há ideias novas. Só há novas maneiras de fazê-las sentidas – de examinar como nos parecem aquelas ideias sendo vividas no domingo de manhã às 7 A.M, depois do café da manhã, durante amor voraz, fazendo guerra, parindo, chorando nossxs mortxs – enquanto nós sofremos as velhas esperas, combatemos os velhos conselhos e medos de sermos silentes e impotentes e sós, enquanto nós provamos nossas possibilidades e forças.



traduzido por tatiana nascimento
https://traduzidas.wordpress.com/