30.5.16

sangrar então nascer

1.
acordei louca, com fome, com buracos para dentro, adentro. acordei louca, com vontade de correr que é uma vontade de voar senão uma vontade de ficar e ser plantada e frutificar e ser tudo: raíz, tronco, sombra, descanso, fruto, flor. e folha leve que cai amparada pelo vento acolhida pela terra, que toda queda é alimento. todo choro é para regar, fortificar o chão. e chão é terra e terra é corpo. acordei louca. com fome de tudo, ando pela casa e faço barulho, feito urso dentro da caverna estou grasnando faminta. fome violenta de afago, fome violenta de doar, fome violenta de ser, tão violenta que não sou, que estou sugada, afogada, o excesso me matou hoje. mas tem dias que me salva. tenho cuidado de hortelãs, elas são é finas, leves, cheirosas, gostam de muita água mas se molha muito sua raíz cria mofo e se afoga, os meus desejos se muitos me afogam sem eu nem mergulhar. mas tudo é sempre lindo. acordei com meus buracos de dentro ocos. hoje sangrei. minha fome de comer é minha fome de esvaziar. minha vontade de esvaziar é minha vontade de transbordar, vazar para todos os cantos e me desdobrar em grandeza que de tão grande mostra minha pequeneza. fico confusa com os contrários. tento abraçá-los porque são meus. escrevo e derramo sobre o teclado minha saliva de fúria e amor. derramo minha ânsia de urgência, enquanto o tempo pede calma e minha fome é louca. e ser louca é tão bom. o Tempo gosta, diante de toda a sua eternidade os loucos sempre o fizeram rir porque desesperados correm engraçados sabidos do fim dos seus mundos. aiii, hoje não me importa a coerência senão o vômito que vem sem pedir licença e sai de dentro e expulsa as incoerências que ferem. feridas estão meus minhas infidelidades com os engasgos todos. quanto desacordo. hoje é o dia de me desenganar. sinto meu coração expandir por todo o meu corpo e isso é um incômodo tamanho. o coração é bonito de um jeito que tenho medo de ser. então ele cresce e expulsa minhas covardias, meu apego a elas me faz sofrer, não choro, só faço careta, mas estou me rasgando inteira e nascer é imenso de um jeito que só a alma aguenta. desejo a próxima hora. que horas estarei pronta? que horas a vida será mansa? daqui uma hora? vou escrever até nascer. enquanto isso paro os meus olhos na parede, tô doida, doída. uma palavra de amor e eu sairia desse lugar nenhum, uma palavra de ódio e eu iria para a lama que é algum lugar ao menos. mas ninguém abre a boca, ninguém. só eu escrevo e posso me escrever agora para me salvar: eu te amo, daniela. você vai nascer e irá amar tudo o que é, vai aprender que alegria é dia após dia. daniela, você vai viver e isso é ser grande. estou começando a sentir a vida agora. tudo isso que me dói é a presença da imensidão. intenso. nem todo dia tudo é tão bom. acordei louca. gritei agora mas minha voz é rouca, saiu tímida. lembro do meu sangue. ele é limpeza. hoje é meu primeiro dia de morrer. e sinto: está tudo certo então, inclusive essa guerra. uma pausa. faça uma pausa..................................................................................................
me sinto boba. mas não fico triste por isso. fico triste porque as coisas não acontecem exatamente na hora que quero. por isso sou boba, mas não fico triste. outra pausa.
foi uma pausa imensa. o trabalho de parto se demora. não sei se nasço ou se dou à luz. as duas coisas é de uma dor sem nome. as duas coisas são reviravoltas. não sei se nasço ou se dou à luz ou se morro. faço tudo. hoje morri muito. o trabalho de parto se demora. primeiro dia de morte. primeiro dia de rebentar buraco afora.

inverno do corpo. dormir dentro da terra. enterrar sangue. plantar lua. ser ciclo. perder.

hoje sangrei.


segunda-feira, trinta de maio de dois mil e dezesseis, Salvador-BA.