30.11.13

e quem inventou o nu
inventou o paraíso
o homem a mulher,
inventou divindades
como andar descalço
e subir em árvores.
inventou o nascer
o princípio e o precipício.
inventou as asas os anjos as revoadas...


inverno, 2013
eu não me declaro nada
não nada de coisa alguma
sou a própria declaração
adentro o mundo
r i o
de tudo
indefino, infinito, vivo
abraço

29/10/11
nesse tempo
nenhum coração se assanha
só o meu assanha.
lá fora é frio, mas
aqui dentro ...


houve um tempo
que aqui dentro
indeciso,
feito dia nublado,
escondia um sol
atrás das roupas...
meu coração vestia, mas
queria se rasgar

agora
meu coração é
tempo
é
hoje.


inverno 2012

27.11.13

que eu passe a vida inteira
transformando lágrima em chuva, grito em dança
porque se não o coração não aguenta.
não me mate com cuidados
me preserve com verdades
não me afague
não se cale
grite
carimbe seu pé na minha bunda
não tenha piedade
mas não me maltrate calado
não encontre o melhor jeito
para dizer não
diga simplesmente: não
um não seco
porque se vier florido
eu não entendo
aceite meu risco
ria comigo
sejamos claros
sejamos dia
não tenha medo
eu não mordo
só morro
mas avanço viva
com amor de lua
segurança de vênus
fogo marciano
ares de gêmeos
não tenha piedade
eu sei perder
eu compreendo o efêmero
e aprendo
só não me mate
com um silencioso não.



Pensei que tô tão alegre que posso até ficar triste sem me entristecer...

[paixão, esse desassossego]

É bem verdade que ando apaixonada e paixão é foda, dá esse desamparo, esse não-saber. tenho me conectado com a minha intuição através dos sonhos, aí pedi pra sonhar o que fazer.
então sonhei que estava dentro de um carro e alguém falou, cuidado com o acelerador se não você cai no poço. Aí o carro começou a andar sozinho e caiu no poço. Fiquei apavorada, mas quando caí, descobri que o poço nem era tão fundo, e nem era um poço, era um riacho. E eu saí sorrindo do carro e fui parar numa estrada de terra, com muito verde nas margens. Terminei o sonho sorrindo.

a verdade é que paixão rouba minha intuição.
aí hoje encontrei esse escrito/verdade de dona hilda:

ah, eu só entendo de paixão, e paixão é intraduzível
indescritível, você quer dizer também. paixão é aquele lago que dá medo, lembra? o lago Averno
sei. a entrada do Inferno. Aquele
entrei nele uma vez. Fiquei gigantesco e rubro. cresci
e quem era? ele ou ela?
ela. estupenda, esguia, mãos pequeninas, roías as unhas
estranho
por quê?
não parece passional
você é mesmo idiota. paixão é isso. é não saber porque

26.11.13

Ao céu que não nos protege,
que continue
não nos
protegendo.

amém.

[oração para o acaso]

*depois de Bertolucci no olhos e no coração.
alma mala lama

[resumo]
re-sentir é não sentir inteiro.


há tempo só para o próprio tempo,
pro resto

travessia.

15.11.13

.

Para cada ser que nasce,
nasce um caminho.


.

Quase uma reza.

Consciência Cósmica
( J. Guimarães Rosa)

Já não preciso de rir.
Os dedos longos do medo
largaram minha fronte.
E as vagas do sofrimento me arrastaram
para o centro do remoinho da grande força,
que agora flui, feroz, dentro e fora de mim...

Já não tenho medo de escalar os cimos
onde o ar limpo e fino pesa para fora,
e nem deixar escorrer a força dos meus músculos,
e deitar-me na lama, o pensamento opiado...

Deixo que o inevitável dance, ao meu redor,
a dança das espadas de todos os momentos.
e deveria rir, se me retasse o riso,
das tormentas que poupam as furnas da minha alma,
dos desastres que erraram o alvo do meu corpo...

- em 'Magma'.

hai k - i

C r i se
tira o se e põe ar,
C r i ar.

5.11.13

Asas:


uma mistura
de leveza
e força.

Primavera, 2013

Sou um conjunto de superfícies,
sou uma
p
r
o
f
u
n
d
e
z
a
.

30.10.13

Para provar que nem toda primavera é solar

1.
nada que esmaga. 
insônia de dar sono. 
nem um amor
nem um poema. 
resta adiar... 
querendo arder...

2.
vomitar vulcões.
morder o mundo.
sangue na retina - furar o olho. 
infernos e afins.
espanca-me, calmaria. 
do chão se faz morada.
(acho que quero cair de bicicleta de novo: 
chacoalhar ângulos, pele, qualquer coisa)


Primavera, 2011


Anúncio

Procura-se
amores e carinhos.
Dispensa-se as ataduras.
Renuncia-se as nomenclaturas.
Aceitamos sussurros, mordidas e outas cositas.



Inverno, 2013.

Lá em casa

vinte e oito de agosto de dois mil e treze.

Iara - Tia Au e eu:

disse pra eu não pôr foto minha pelada na internet, está escrito na bíblia que nosso corpo, de mulher, é um segredo. mas eu sou artista, Tia Au. artista? artista sofre, você vai é sofrer. eu sei, eu já sofro. pois é...
(e em seguida fez de mim uma fotografia, eu nua e abstrata).
eu
fotografei
ela
e ela
me
fotografou.






Inverno, 2013

Primavera, 2013

Foi preciso ver o mar para concluir: a vida é maior.


Primavera, 2013

passado tempo eremita
chegado tempo solar
estação de renascer
de flor e crescimento
vontade de a cor dar
cedo
amar cedo
de dar
vontade de olhar e ver gente
comer gente beijar-flor gente
dividir cama orgasmo conversa
gente
gente, eu estou toda primavera
um bicho, um bichinho
ao léu, ao ar
livre.


Da memória

Meu 
corpo:
álbum de família.

14.10.13

aprendiz de atriz

voltei morta e renascida,
de cicatrizes
e asas novas.

disposta ao abismo, ao rasgo, sem perder a alegria.
pronta para voo.

primavera, 2013

amadurecer é deixar
a
asa
crescer.

7.9.13

ato retrato III, ou Oração ao Corpo


o corpo me parece novo:

infinito que nem o mistério
palpável feito comida




5.9.13

Dona Hilda querida in Trajetória Poética Do Ser, Iniciação de Poeta

O ouro do mais fundo está em ti.
Em mim, as coisas breves tomam corpo
E uma saga de bronze no meu ombro
A cada dia se transforma em chaga.
Um sol que se contraí sobre o meu rosto.
Aves de que não sei a sombra, vi-as
Na manhã quando o amor era chama
Mas num sopro perdi-as
E é grande agonia o que era gozo.
Guia-me complacência. Que o instante
Não se afaste de mim, antes padeça
Desse meu existir e eu não me perca.

2.9.13

night vupt

Hoje vi nascer uma festa
.
.. que morreu.

29.8.13

ato-retrato II, ou Oração ao Corpo

Que coisa linda estar,
ser
meu corpo,
admiti-lo.

Coragem é uma deusa que vaga nua
sem medo de ser.

Coragem é nudez vestida de desejo,
salto na incerteza imensa do mundo,
des-cobrir amanhecer a noite ser.



"(...)
Mas tu mostrarás a curva do teu vôo
Livre, por entre os mundos...
E eles compreenderão que a alma pesa.
Que é um segundo corpo,
E mais amargo,
Porque não se pode mostrar,
Porque ninguém pode ver... " 

(Cântico XVII, Cecília Meireles)

9.8.13

o afogado mais bonito do mundo
entrou na minha casa, amansou o vento
e consertou o abismo do meu telhado
minhas portas, meu piso, meu espírito
se quedaram diante da sua boniteza
o mais alto
o mais profundo
o mais bonito afogado do mundo
tirou-me o ar, deixando-me aos suspiros,
para em seguida eu respirar melhor
e sonhar
o mais alto
o mais profundo
dos sonhos
sem âncoras
o homem
voltou para o imenso
esse imenso
ser bonito no mundo
o mais bonito do mundo.



(Um mito de García Marquez que se materializou na minha casa)

hospedo no meu quarto uma mala
feitas de mapas, bússolas
e asas.
dentro dela mora uma máscara
que não quer sair nunca...

em breve vamos viajar,
eu e a mala,
que faremos da máscara?

já nasci com o coração partido:
castor&pólux moram no meu peito,
meu signo,
passeio entre o terreno e o divino,
nunca me decido.
mas a verdade é que
eu gosto.

um rebuliço cá dentro
o coração alcança a boca:
quer alcançar o mundo,
romper o muro,
abrir a terra e o céu.
o pé a fé a pé
aponta para a porta.
minha juventude é minha roupa,
estou nua de tanta vontade.

3.8.13

m(eu)

minha
cara
confusa mulata

meu
sangue
negro rubro

meu
coração
é um corpo

minha
pele
é profunda

meu
desejo
é sagrado.

1.8.13

Cântigo Negro (José Régio)


"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!

25.7.13

Solução

eu sou um universo
os outros são outros
universos
que o jeito
é
unir
os avessos.

bicicletaprendizagem

o equilibrio não é estático
e o horizonte se adianta
ai, dos meus olhos e dos meus passos
não se adiantarem também.

sem ação
perde-se o equilíbrio,
desorienta-se,
ocidenta-se.

é necessário olhar pra frente,
me ensinou a bicicleta.

24.7.13

a lancinante Hilda

o meu trabalho é aquele instante, um segundo antes da flecha ser lançada, a tensão do arco, a extrema tensão, o sol incidindo no instante do corte, é a rapidez de uma navalha que, com um golpe lancinante, fulminante, corta o teu pescoço

23.7.13

in-co-moda


a nudez incomoda muita gente
a repressão incomoda muito mais
um grito incomoda muito gente
o silêncio incomoda incomoda incomoda muito mais
uma multidão incomoda muita gente
um batalhão incomoda incomoda incomoda incomoda incomoda incomoda muito mais
a liberdade incomoda muito gente
a moral incomoda incomoda incomoda incomoda incomoda incomoda muito mais

um bêbado incomoda muita gente
o presidente o prefeito a propaganda
incomoda incomoda incomoda incomoda incomoda incomoda incomoda incomoda incomoda muito mais
o pecado incomoda muita gente
o preconceito
 o cu trancado
a mão fechada
a demagogia
o tralalalá
incomoda infinitamente mais

mil elefantes incomodam muita gente
uma mulher que não quer calar
ad infinitum

20.7.13

o cálculo da maçã

que além de mim
existe o outro
e que somos dois
mas existem mais