26.11.13

há tempo só para o próprio tempo,
pro resto

travessia.

15.11.13

.

Para cada ser que nasce,
nasce um caminho.


.

Quase uma reza.

Consciência Cósmica
( J. Guimarães Rosa)

Já não preciso de rir.
Os dedos longos do medo
largaram minha fronte.
E as vagas do sofrimento me arrastaram
para o centro do remoinho da grande força,
que agora flui, feroz, dentro e fora de mim...

Já não tenho medo de escalar os cimos
onde o ar limpo e fino pesa para fora,
e nem deixar escorrer a força dos meus músculos,
e deitar-me na lama, o pensamento opiado...

Deixo que o inevitável dance, ao meu redor,
a dança das espadas de todos os momentos.
e deveria rir, se me retasse o riso,
das tormentas que poupam as furnas da minha alma,
dos desastres que erraram o alvo do meu corpo...

- em 'Magma'.

hai k - i

C r i se
tira o se e põe ar,
C r i ar.

5.11.13

Asas:


uma mistura
de leveza
e força.

Primavera, 2013

Sou um conjunto de superfícies,
sou uma
p
r
o
f
u
n
d
e
z
a
.

30.10.13

Para provar que nem toda primavera é solar

1.
nada que esmaga. 
insônia de dar sono. 
nem um amor
nem um poema. 
resta adiar... 
querendo arder...

2.
vomitar vulcões.
morder o mundo.
sangue na retina - furar o olho. 
infernos e afins.
espanca-me, calmaria. 
do chão se faz morada.
(acho que quero cair de bicicleta de novo: 
chacoalhar ângulos, pele, qualquer coisa)


Primavera, 2011


Anúncio

Procura-se
amores e carinhos.
Dispensa-se as ataduras.
Renuncia-se as nomenclaturas.
Aceitamos sussurros, mordidas e outas cositas.



Inverno, 2013.

Lá em casa

vinte e oito de agosto de dois mil e treze.

Iara - Tia Au e eu:

disse pra eu não pôr foto minha pelada na internet, está escrito na bíblia que nosso corpo, de mulher, é um segredo. mas eu sou artista, Tia Au. artista? artista sofre, você vai é sofrer. eu sei, eu já sofro. pois é...
(e em seguida fez de mim uma fotografia, eu nua e abstrata).
eu
fotografei
ela
e ela
me
fotografou.






Inverno, 2013

Primavera, 2013

Foi preciso ver o mar para concluir: a vida é maior.


Primavera, 2013

passado tempo eremita
chegado tempo solar
estação de renascer
de flor e crescimento
vontade de a cor dar
cedo
amar cedo
de dar
vontade de olhar e ver gente
comer gente beijar-flor gente
dividir cama orgasmo conversa
gente
gente, eu estou toda primavera
um bicho, um bichinho
ao léu, ao ar
livre.


Da memória

Meu 
corpo:
álbum de família.

14.10.13

aprendiz de atriz

voltei morta e renascida,
de cicatrizes
e asas novas.

disposta ao abismo, ao rasgo, sem perder a alegria.
pronta para voo.

primavera, 2013

amadurecer é deixar
a
asa
crescer.

7.9.13

ato retrato III, ou Oração ao Corpo


o corpo me parece novo:

infinito que nem o mistério
palpável feito comida




5.9.13

Dona Hilda querida in Trajetória Poética Do Ser, Iniciação de Poeta

O ouro do mais fundo está em ti.
Em mim, as coisas breves tomam corpo
E uma saga de bronze no meu ombro
A cada dia se transforma em chaga.
Um sol que se contraí sobre o meu rosto.
Aves de que não sei a sombra, vi-as
Na manhã quando o amor era chama
Mas num sopro perdi-as
E é grande agonia o que era gozo.
Guia-me complacência. Que o instante
Não se afaste de mim, antes padeça
Desse meu existir e eu não me perca.

2.9.13

night vupt

Hoje vi nascer uma festa
.
.. que morreu.

29.8.13

ato-retrato II, ou Oração ao Corpo

Que coisa linda estar,
ser
meu corpo,
admiti-lo.

Coragem é uma deusa que vaga nua
sem medo de ser.

Coragem é nudez vestida de desejo,
salto na incerteza imensa do mundo,
des-cobrir amanhecer a noite ser.



"(...)
Mas tu mostrarás a curva do teu vôo
Livre, por entre os mundos...
E eles compreenderão que a alma pesa.
Que é um segundo corpo,
E mais amargo,
Porque não se pode mostrar,
Porque ninguém pode ver... " 

(Cântico XVII, Cecília Meireles)

9.8.13

o afogado mais bonito do mundo
entrou na minha casa, amansou o vento
e consertou o abismo do meu telhado
minhas portas, meu piso, meu espírito
se quedaram diante da sua boniteza
o mais alto
o mais profundo
o mais bonito afogado do mundo
tirou-me o ar, deixando-me aos suspiros,
para em seguida eu respirar melhor
e sonhar
o mais alto
o mais profundo
dos sonhos
sem âncoras
o homem
voltou para o imenso
esse imenso
ser bonito no mundo
o mais bonito do mundo.



(Um mito de García Marquez que se materializou na minha casa)

hospedo no meu quarto uma mala
feitas de mapas, bússolas
e asas.
dentro dela mora uma máscara
que não quer sair nunca...

em breve vamos viajar,
eu e a mala,
que faremos da máscara?

já nasci com o coração partido:
castor&pólux moram no meu peito,
meu signo,
passeio entre o terreno e o divino,
nunca me decido.
mas a verdade é que
eu gosto.

um rebuliço cá dentro
o coração alcança a boca:
quer alcançar o mundo,
romper o muro,
abrir a terra e o céu.
o pé a fé a pé
aponta para a porta.
minha juventude é minha roupa,
estou nua de tanta vontade.

3.8.13

m(eu)

minha
cara
confusa mulata

meu
sangue
negro rubro

meu
coração
é um corpo

minha
pele
é profunda

meu
desejo
é sagrado.

1.8.13

Cântigo Negro (José Régio)


"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!

25.7.13

Solução

eu sou um universo
os outros são outros
universos
que o jeito
é
unir
os avessos.

bicicletaprendizagem

o equilibrio não é estático
e o horizonte se adianta
ai, dos meus olhos e dos meus passos
não se adiantarem também.

sem ação
perde-se o equilíbrio,
desorienta-se,
ocidenta-se.

é necessário olhar pra frente,
me ensinou a bicicleta.

24.7.13

a lancinante Hilda

o meu trabalho é aquele instante, um segundo antes da flecha ser lançada, a tensão do arco, a extrema tensão, o sol incidindo no instante do corte, é a rapidez de uma navalha que, com um golpe lancinante, fulminante, corta o teu pescoço

23.7.13

in-co-moda


a nudez incomoda muita gente
a repressão incomoda muito mais
um grito incomoda muito gente
o silêncio incomoda incomoda incomoda muito mais
uma multidão incomoda muita gente
um batalhão incomoda incomoda incomoda incomoda incomoda incomoda muito mais
a liberdade incomoda muito gente
a moral incomoda incomoda incomoda incomoda incomoda incomoda muito mais

um bêbado incomoda muita gente
o presidente o prefeito a propaganda
incomoda incomoda incomoda incomoda incomoda incomoda incomoda incomoda incomoda muito mais
o pecado incomoda muita gente
o preconceito
 o cu trancado
a mão fechada
a demagogia
o tralalalá
incomoda infinitamente mais

mil elefantes incomodam muita gente
uma mulher que não quer calar
ad infinitum

20.7.13

o cálculo da maçã

que além de mim
existe o outro
e que somos dois
mas existem mais

19.7.13

Estou a fazer,
devo dizer,
uma poesia está a me fazer,
mas ainda não sei bem
o que ela quer dizer...

Diário de bordo

Há de chegar o tempo em que o corpo vai 
responder antes da mente pensar
e assim que vai ser.
O pensamento não será mais
um produto refinado
da máquina-cérebro
e do seu protocolo moral e cívico,
pois terá suas arestas
de pelos, saliva e suor.
Meu pensamento
terá a forma da minha boca
e vai pensar beijo
o tamanho dos meus braços
e vai concluir abraços
o peso do meu corpo
e será imediato
 - um ato!
E que a mente sirva para concluir
prazeres
enxergar
o bem
que faz
fluir
o bem
que faz
agir
o bem
que faz
o risco, o rabisco, o erro
e que isso
é o menos
que é mais
que é vida.


*um D de Descoberta depois
de uma oficina de palhaçaria.

18.7.13

Walt Whitman

Daqui em diante ordeno a mim mesmo o fim de limites e linhas imaginárias,
Indo para onde me apraz, sou meu próprio senhor, total e absoluto,
Escutando os outros, pensando bem no que dizem,
Parando, procurando, recebendo, contemplando,
Gentilmente, mas com desejo inegável, despindo-me de tudo que pudesse me parar.

Inalo gigantescas tragadas de espaço,
O leste e o oeste são meus e o norte e o sul são meus.

Sou maior, melhor do que pensei,
Não sabia que guardava em mim tanta bondade.

Tudo parece lindo para mim,
Posso repetir aos homens e às mulheres, Vocês têm me feito tão bem que eu poderia fazer o mesmo a vocês,
Convocarei voluntários para mim e para vocês enquanto sigo em frente,
Farei meu eu circular entre homens e mulheres enquanto sigo,
Suscitarei uma nova satisfação, um novo tumulto entre eles,
Quem quer que me negue não me incomodará,
Quem quer que me aceite, homem ou mulher, há de ser abençoado e me abençoar.

17.7.13

julho,2013

Que esse incômodo com minha aparência não me leve ao salão de beleza.
Que se resolva com algumas palhaçarias, muita meditação,
a descoberta de um eu maior...
Que essa minha aparência, eu sei, não me leva a nada.
Mas esse incômodo... 

16.7.13

Ladainha III

viver
como se qualquer alegria
me estonteasse
as idéias
e eu fosse viver de samba
amar demais
meu coração atrás do tempo
do bumbo
do mundo inteiro
meu coração inteiro

e eu fosse
viver
amar demais
e meu coração de samba
o tempo sem desespero
e a paixão tão sem beira, puro abismo
criando chão e adquirindo leveza
e eu fosse
viver

e estou vivendo
ainda que de qualquer jeito, acertando o passo
no enredo dos erros, medo bambo...
eu sou viva.

... ai, quase caio...
... amor, ainda é cedo...
... ai, ai mundão véio...
... devaneio, devaneio...


SET, 2012



Tempo:
deus passante,
deus andante...

Às vezes, fico tão doente
que desejo que ele pare
um instantinho
pra eu aguentar.
Mas se ele parasse
eu seria doente para sempre...

20.6.13

ato-retrato



porque sou sim um par de seios,
 meus peitos
e olhos,
e um abismo, um mundo.

e também os dedos, o cabelo,
eu sou meu corpo
torto e inteiro.

não sou além,
sim aqui,
e não sou só isso

e sou só.

8.6.13

Hilda.

Enfim, o existir não me confunde nada. O que me confunde é a vontade súbita de me dizer, de me confessar, às vezes eu penso que alguém está dentro de mim, não alguém totalmente desconhecido, mas alguém que se parece a mim mesmo, que tem delicadas excrescências, uns pontos rosados, outros mais escuros, um rosado vermelho indefinido, e quando chego bem perto dos pequenos círculos, quando tento fixá-los, vejo que eles têm vida própria, que não são imóveis como os poros de Mirtza, que eles se contraem, se expandem, que eles estão à espera... de quê? De meus atos.

21.4.13

Palavra de pescador

- O homem morre. O mar não, o mar é pra sempre...

Diálogo interno.

- O que você tem?
- Dúvida de existir.