amor em mim é
falta de sono e
excesso de sonho.
24.8.11
resíduo
carlos drummond de andrade
De tudo ficou um pouco
Do meu medo. Do teu asco.
Dos gritos gagos. Da rosa
ficou um pouco.
[...]
Se de tudo fica um pouco,
mas por que não ficaria
um pouco de mim? no trem
que leva ao norte, no barco,
nos anúncios de jornal,
um pouco de mim em Londres,
um pouco de mim algures?
na consoante?
no poço?
[...]
E de tudo fica um pouco.
Oh abre os vidros de loção
e abafa
o insuportável mau cheiro da memória.
Mas de tudo, terrível, fica um pouco...
De tudo ficou um pouco
Do meu medo. Do teu asco.
Dos gritos gagos. Da rosa
ficou um pouco.
[...]
Se de tudo fica um pouco,
mas por que não ficaria
um pouco de mim? no trem
que leva ao norte, no barco,
nos anúncios de jornal,
um pouco de mim em Londres,
um pouco de mim algures?
na consoante?
no poço?
[...]
E de tudo fica um pouco.
Oh abre os vidros de loção
e abafa
o insuportável mau cheiro da memória.
Mas de tudo, terrível, fica um pouco...
20.8.11
Dezembro, 1961.
...De ver o teu corpo num pano cigano e sentir o teu cheiro que mora nas abas do meu paletó.
De quando eu, todo platéia, vejo da cama quando tu vagarosamente te pintas com cores de quase luxo. Diante da mentira do espelho és Narciso e és Orfeu, toda emperequetada.
De quando abres as portas do armário e tira dele tuas armaduras de guerra:
- O azul ou o vermelho? Qual te faz mais gosto?
Bem, de certo que o azul era por demais decotado, mas o tom era doce e compadecia, já o vermelho... O vermelho como nós sabemos tinha mangas rendadas e compridas, mas a cor denunciava todo e qualquer pecado.
E ainda que toda noite me fizesses maquinalmente escolher entre os dois, surgias sempre da pequena cabina com o velho vermelho satânico e desbotado.
E assim passariam nossas noites. Tu, iludida, a me fazer de tolo, eu, o tolo que tu querias, pediria-te apenas os olhos de fúria emprestados, sim, Ana, os pequenos olhinhos de fúria, para que com eles eu fizesse toda sorte de gozo, para que com eles eu me ressarcisse na noite e no tempo de tua ausência.
De Vicente à Ana.
(Massumi)
10.7.11
29.6.11
13.6.11
Feitura
Tô chicoteando para ver dançar.
Mas,
só dói em mim,
só eu danço.
Eu que pensava ser alforriada.
Chicote espinhoso
que bate no vento, torto, STLAK!
antes de me agarrar.
12.6.11
.
então, é isso:
minha liberdade é silenciosa;
e o manifesto não é nosso, é meu;
causas e causas,
e só o que me importa é a embriaguez,
o desatino,
um querer matuto, bruto,
tão bruto,
que é inocente
e louco.
Tudo em mim é vadio
e muito,
e pousa e voa,
a poesia é vadia
a alma,
o coração,
as horas. A vida.
E odeio políticagem!
P.S.: cansei, cansei, cansei...
22.5.11
Não quero ser flor
Não quero ser flor
Melhor é ser bicho
Sem trancas nem saias
Antes pernas que pétalas
Se o que quero é abrir...
Ainda me caso e viro puta:
um dia desses eu me desfaço.
13.5.11
a nossa legítima casca canceriana
(...)
ayume oliveira
8.5.11
.
vira e volta,
se envolve nos meus cabelos.
encaracolada, encaracolando-os.
19.4.11
Manuel de Barros
No que o homem se torne coisal,
corrompem-se nele os veios comuns do entendimento.
Um subtexto se aloja.
Instala-se uma agramaticalidade quase insana,
que empoema o sentido das palavras.
Aflora uma linguagem de defloramentos, um inauguramento de falas
Coisa tão velha como andar a pé
Esses vareios do dizer.
corrompem-se nele os veios comuns do entendimento.
Um subtexto se aloja.
Instala-se uma agramaticalidade quase insana,
que empoema o sentido das palavras.
Aflora uma linguagem de defloramentos, um inauguramento de falas
Coisa tão velha como andar a pé
Esses vareios do dizer.
9.3.11
Ladainha
porque é quarta-feira de cinzas,
e o dia se fez cinza,
e até a chuva foi triste,
e eu não pude
deixar de compartilhar...
sendo assim, hoje fui triste também.
porque festa tem fim,
e oscila,
e cansada descansa
triste,
e cansada eu durmo e acordo
também triste.
e porque junto com a festa
de ontem,
foi-se olhar
que eu tinha para
olhar alegre.
mas por que raios um dia tem de ser de cinzas?
e o dia se fez cinza,
e até a chuva foi triste,
e eu não pude
deixar de compartilhar...
sendo assim, hoje fui triste também.
porque festa tem fim,
e oscila,
e cansada descansa
triste,
e cansada eu durmo e acordo
também triste.
e porque junto com a festa
de ontem,
foi-se olhar
que eu tinha para
olhar alegre.
mas por que raios um dia tem de ser de cinzas?
24.1.11
.
Estou dançando,
pareço leve,
apareçe um monstro,
me pegou pelas pernas,
e agora me engole:
Oh meu Deus, sou transparente
e corrosiva.
O monstro está queimando a língua,
desci ardente
desci menina.
O meu monstro é maior do que eu,
mas desapareçemos
porque somos nuvens...
d.
pareço leve,
apareçe um monstro,
me pegou pelas pernas,
e agora me engole:
Oh meu Deus, sou transparente
e corrosiva.
O monstro está queimando a língua,
desci ardente
desci menina.
O meu monstro é maior do que eu,
mas desapareçemos
porque somos nuvens...
d.
22.1.11
.Relatório II
Do jeito mais triste e lento
.
vesti o meu vestido de tudo, de quase luto,
longe, longo, elegante e escuro.
Onde é a festa hoje?
Onde eu farei a festa-de-cada-dia
se em mim tudo tem pressa? E ela
é triste que só... e eu.
Quando eu... quando que eu vou?
Fico aqui de festa triste esperando ônibus encontro estiagem de choro que requer espera porque dá pra esperar do meu jeito escasso de palavras estranho jeito engraçado jeito de amar de vestir vestido e continuar tão nua de pouco consolo alguma alegria querida quero tanto...
Eu te espero.
Eu te espero lenta.
Nos espere festa... lentíssima festa...
.
12.1.11
5.1.11
.Relatório
Direcionada (ou não)
é a mesma cansada pressa, dessas
de fazer esquecer como se respira
o ar que por dentro passeia,
eficaz morfina.
A pressa é vício de quem quer escapar.
Derreter-se,
calar...
Desamarrar
Desde dessa escrita caótica,
que tem vontade própria de acabar,
ao tempo
que também é percebido
como caos...
Desde então...
tudo aqui é pressa.
E a pressa é cheia de enganos.
é a mesma cansada pressa, dessas
de fazer esquecer como se respira
o ar que por dentro passeia,
eficaz morfina.
A pressa é vício de quem quer escapar.
Derreter-se,
calar...
Desamarrar
Desde dessa escrita caótica,
que tem vontade própria de acabar,
ao tempo
que também é percebido
como caos...
Desde então...
tudo aqui é pressa.
E a pressa é cheia de enganos.
[estou cansada dessa]
................................................................................
Exilada do;
que é teu mundo
que é vento,
isso que balança,
transeunte
vadio, antigo.
que é teu mundo
que é vento,
isso que balança,
transeunte
vadio, antigo.
Fernando Pessoa - Álvaro de Campos
Tenho dó das estrelas
Luzindo há tanto tempo,
Há tanto tempo...
Tenho dó delas.
Não haverá um cansaço
Das coisas,
De todas as coisas,
Como das pernas ou de um braço?
Um cansaço de existir,
De ser,
Só de ser
O ser triste brilhar ou sorrir...
Não haverá, enfim,
Para as coisas que são,
Não a morte, mas sim
Uma outra espécie de fim,
Ou uma grande razão -
Qualquer coisa assim
Como um perdão?
Luzindo há tanto tempo,
Há tanto tempo...
Tenho dó delas.
Não haverá um cansaço
Das coisas,
De todas as coisas,
Como das pernas ou de um braço?
Um cansaço de existir,
De ser,
Só de ser
O ser triste brilhar ou sorrir...
Não haverá, enfim,
Para as coisas que são,
Não a morte, mas sim
Uma outra espécie de fim,
Ou uma grande razão -
Qualquer coisa assim
Como um perdão?
14.12.10
E gravemente aguda.
Hoje fui à farmácia comprar um alnagésico para a dor (vai que esse tipo de crença funcione, meu bom Deus?!). Dor de quem está triste. Tristeza. Corpo sem cor, alma sem calma, preguiça de quem não dorme. Vai ver também por isso se toma remédio para depressão: coisa remediada, farmacêutica, olhos-luneta; tristeza de quem nasceu pra conceber só felicidade, todas, de todos os tamanhos, e a vida como é sem jeito: tasca-lhes a tragédia, todas, várias, de todos os tamanhos (ouvi dizer que a vida é uma tragédia cativante). A vida não é louca, não completamente. (Aliás, nada na Vida é completamente. Nem os loucos são - caos somado com os DiasdePaz). Porque loucos são tipos com grau elevado de verdadeira decência, além dessa terra e ainda aqui, em vários tempos. Os olhos-lunetas e um amor que não dá certo, tudo muito claro. Mais escuro não. Tenho que a escuridão é a mesma para todos. A escuridão é sem cor, e ausência é coisa concreta. A escuridão tem profundidade, e abstrato é o tamanho de cada abismo. O abismo é intrínseco. Sim, poeta, abismo que cavaste com teus pés, a mesma claridade do céu. E tristeza, aquela de quem começei falando...v... a... i... medeixandomuda... sussurra: é segredo falar de mim, de nós... dói...
Minha tristeza é tola,
quanto mais dói, mais é tola...
Sou timidamente triste.
Porque a alegria,
ah, essa voa!
E só de brincadeira e bicicleta,
eu sei voar...
quanto mais dói, mais é tola...
Sou timidamente triste.
Porque a alegria,
ah, essa voa!
E só de brincadeira e bicicleta,
eu sei voar...
8.12.10
Receita de engrenagem
Ah, e se o mundo... fosse todo feito de coragem?
Extintos seriam os bobos,
inexistentes os infelizes
e nus e múltiplos e eternos,
ai! seriam os apaixonados.
Eu teria um amor pra cada noite de chuva
e um leve coração-balão-gigante
pra sustentar a solidão dos dias enxutos.
Extintos seriam os bobos,
inexistentes os infelizes
e nus e múltiplos e eternos,
ai! seriam os apaixonados.
Eu teria um amor pra cada noite de chuva
e um leve coração-balão-gigante
pra sustentar a solidão dos dias enxutos.
ai, quem me dera...
31.10.10
Preparativos para a viagem
Uns vão de guarda-chuva e galochas,
outros arrastam um baú de guardados...
Inúteis precauções!
Mas,
se levares apenas a visões deste lado,
nada te será confiscado:
todo o mundo respeita os sonhos de um ceguinho
-a sua única felicidade!
E os próprios Anjos, esses que fitam a face do Senhor...
os próprios Anjos te invejarão.
m. quintana
outros arrastam um baú de guardados...
Inúteis precauções!
Mas,
se levares apenas a visões deste lado,
nada te será confiscado:
todo o mundo respeita os sonhos de um ceguinho
-a sua única felicidade!
E os próprios Anjos, esses que fitam a face do Senhor...
os próprios Anjos te invejarão.
m. quintana
2.10.10
Poesia que dá
A poesia espera?
Porque sou poeta e
eu não sei esperar.
A poesia é do poeta?
Ou o poeta é a poesia?
A poesia duvida?
Porque sou poeta e
eu não sei esperar.
A poesia é do poeta?
Ou o poeta é a poesia?
A poesia duvida?
Se a poesia não duvida,
ainda assim sou poeta?
ainda assim... espero.
ainda assim... espero.
14.8.10
(injeção de ânimo)
Alô, liberdade
levante, lava o rosto
Fica em pé
Como é, liberdade ...
Vou ter que requentar
O teu café
levante, lava o rosto
Fica em pé
Como é, liberdade ...
Vou ter que requentar
O teu café
10.8.10
Talvez por ser mulher:
mas hoje
me peguei
de mãos ocupadas
a cheirar,
aos suspiros,
tua camisa esquecida
comigo.
(talvez por ser mulher?)
Eu fico bem na sua sala
eu:
-É tão bom não querer nada às vezes...rayza:
-Nada, não sei, mas nadaR é saudável...
(sorrisos)
rayza:
-Hum...
eu:
-O seu "hum" foi tão...
rayza:
-...desafinado.
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